Maria Oiticica, a mulher por trás das biojóias




Tive o prazer de ouvir, e poder compartilhar aqui no blog, a bela história de amor da designer Maria Oiticica pelas cidades de Manaus e Rio de Janeiro. Quando pensei no nome "garimpando", tinha em mente não apenas contar as minhas experiências de viagens, mas de encontrar, e dividir com vocês, boas histórias. E a conversa com Maria Oiticica vem ao encontro dessa ideia. Espero que gostem! 



Maria Oiticica Biojóias
Maria Oiticica Biojóias


Entrevista com Maria Oiticica, a mulher por trás das biojóias

Você abriu seu primeiro atelier em Ipanema, em 2003. Antes disso, você trabalhava com o quê?

Maria Oiticica - Tudo começou a ganhar corpo quando ainda era menina, em Manaus, onde nasci e morei por muitos anos. Meu pai, que era um comerciante típico e tradicional da região, negociava alimentos nas comunidades ribeirinhas em troca de produtos extrativistas para revender na capital. A partir das sementes e dos frutos da floresta que ele levava para casa, como do tucumã, do açaí e da castanha (a castanha do Brasil ou do Pará, como é mais conhecida), passava meus dias “brincando de modelar” acessórios e roupas. Aos 19 anos, desembarquei no Rio, comecei a confeccionar bijuterias em casa e, na sequência, resolvi montar um atelier de costura. Mas a vida tornou a me levar de volta para Manaus, onde cursei a faculdade de Jornalismo e trabalhei na área de Comunicação. Em 2002, depois de perder um filho e insatisfeita com o meu trabalho, resolvi voltar para aquelas sementes e frutos da infância.


Tudo começou com uma pulseira que você criou para presentear uma amiga, foi isso?

Maria Oiticica - Sim. Sentia muita necessidade de preencher o vazio provocado pela minha perda. Já decidida a retornar ao Rio com meu marido, precisei presentear a curadora de um museu nos Estados Unidos. Como amazonense, fiz questão de dar algo que representasse minha região, mas acabei por não encontrar nada que me agradasse em termos de acabamento. Assim, resolvi comprar algumas sementes de jarina nas feiras de Manaus, além de fios naturais, ferragens e alicates, montei uma pulseira e mandei uma mensagem à curadora, falando sobre o material e sobre os cuidados necessários com a peça. Sem me dar conta, mudei o rumo da minha história. Com o restante dos materiais que havia sobrado daquela pulseira, desembarquei novamente no Rio, continuei a criação de outras peças, passei a pesquisar novas matérias-primas e pigmentos naturais – não só da Amazônia, mas também da Mata Atlântica e do Cerrado – e a vender o que produzia, em casa. A aceitação foi tão grande que precisei abrir um atelier fora de casa com apenas uma artesã assistente. Ao contratar uma segunda artesã assistente, a empresa precisou ser criada. Registrei-a com o nome de Tururi Artesanato Ltda., mas depois de uma matéria em O Globo, o nome Maria Oiticica prevaleceu e assim nasceu a Maria Oiticica Biojóias. Em 2006, esse trabalho inovador necessitou ganhar visibilidade e decidi apostar em um quiosque no Rio Sul.



Maria Oiticica Biojóias
Maria Oiticica Biojóias



Maria Oiticica e as jóias da nossa Amazônia

Todo o material que você usa vem de Manaus? 

Maria Oiticica
 - Não de Manaus, mas de diversas localidades da Amazônia – temos fornecedores no Acre, no Amazonas – além de regiões de Mata Atlântica e do Cerrado. Mas a grande maioria vem mesmo de Amazônia Brasileira.


E como funciona essa compra? Você mesma escolhe o material? Costuma ir a Manaus?

Maria Oiticica - Viajei muito para pesquisar materiais, buscar fornecedores, o que não é simples porque respeitamos os ciclos da floresta. Nada é retirado, arrancado da natureza. Utilizamos restos, cascas, fibras e sementes que já encerraram seus ciclos. Muitas das sementes como a da jarina, por exemplo, só é coletada numa época específica do ano, já que ela só é recolhida quando cai da palmeira, já na consistência que precisamos e sem função na natureza. Nossos fornecedores são núcleos familiares de artesãos, de catadores de sementes. Toda a nossa produção é sustentável e consciente.


Que materiais você usa?

Maria Oiticica - Sementes de palmeiras como a jarina, açaí, inajá, paxiúba e jupati; cascas que sobram pelo chão, como a flor do babaçu e do inajá, espata de palmeira.


Para você, qual a importância de usar matéria-prima da sua terra natal na confecção das joias?

Maria Oiticica - Acho que esse olhar foi sendo formatado com o passar do tempo. Hoje vejo que ele é muito legítimo, que ali está a minha infância, as memórias que tenho de Manaus, de meu pai, principalmente, que me contava histórias da floresta, que fez muitos amigos simples, que viviam em condições precárias como estes que hoje, de alguma forma, posso ajudar. Fico feliz por fazer minha pequenina parcela. São pessoas de um Brasil desconhecido, mas de uma dignidade e de um valor enormes. Quando pego numa semente para fazer uma peça sinto o cheiro da floresta.


São três lojas (aeroporto, Leblon e Ipanema) e presença em algumas multimarcas. Há planos de expandir?

Maria Oiticica - Temos hoje duas lojas, a do Shopping Leblon e a que fica no embarque internacional do Aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Em Ipanema, fica o nosso atelier, onde funciona a produção e a parte administrativa. Estamos abrindo uma loja em Búzios no dia 7 de dezembro, num lugar lindo que é o Porto da Barra. Fora isso, temos representantes no Brasil e no exterior, como a Casa Pau-Brasil, em Lisboa, em Cascais e em Comporta.


Fala-se muito em sustentabilidade, mas esse já era um compromisso seu bem antes de virar "moda". Como você avalia o mercado de joias hoje em relação à sustentabilidade?


Maria Oiticica - Eu já tinha uma cabeça sustentável sem saber, tinha essa preocupação com a preservação da natureza, com o equilíbrio do meio-ambiente e com a situação do povo da floresta. Não acredito que tenha virado moda, a maioria das pessoas, não apenas do mercado de joias, mas de todos os segmentos, estão se conscientizando que temos um compromisso com as futuras gerações, com o universo de uma forma geral. É a agenda do mundo inteiro. E, não por acaso, quem está pautando os adultos é a juventude, jovens que já entenderam a mensagem.


E como você descreveria seu amor pelo Rio e por Manaus?


Maria Oiticica - Manaus é minha origem, minha raiz, minha família e minha inspiração. O Rio de Janeiro foi paixão à primeira vista, onde me casei, tive meus filhos, fiz muitos amigos. Amo passear pelas ruas, sentir a cidade, caminhar pela orla ou pela Lagoa. Sou otimista e tenho esperança de que essa cidade volte a ser maravilhosa. Sou uma amazonense carioca. Minha obra tem os dois lados, a essência da floresta, a vida, a beleza natural. É orgânica. E o Rio contribui com o colorido, a alegria natural, a leveza.




Mais informações no Maria Oiticica.


Maria Oiticica Biojóias
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Maria Oiticica, a primeira edição da nova parceria do blog 


Esse projeto foi uma parceria com o fotografo Alexandre Caipora, com quem trabalhei durante anos no Jornal O Globo. Atualmente, Caipora, como é mais conhecido, desenvolve um belíssimo trabalho autoral. Além da fotografia, ele desenvolve com o mesmo carinho, a produção de vídeos e sua edição.

Conheça mais do trabalho no site Caipora Fotografia.  
Siga o Caipora no Instagram: @caiporafotografia